O Piauí registrou um aumento de 69,4% nos homicídios de mulheres negras entre 2013 e 2023, segundo dados do Atlas da Violência. O estado é o segundo no país com a maior alta nesse período, atrás apenas do Ceará (74,4%).
Neste Dia Internacional da Mulher Negra Afro Latino-Americana e Caribenha, celebrado em 25 de julho, eventos como a Feira Preta em Teresina buscam valorizar a cultura e a resistência dessas mulheres, enquanto dados revelam um cenário alarmante de violência.
Dados da violência contra mulheres negras no Piauí
Em 2023, 61 mulheres negras (pretas e pardas) foram vítimas de homicídio no estado – o maior número em uma década. Enquanto isso, o Brasil como um todo registrou queda de 20,4% nesses casos no mesmo período.
| Ano | Número de homicídios |
|---|---|
| 2013 | 36 |
| 2014 | 51 |
| 2015 | 56 |
| 2016 | 43 |
| 2017 | 39 |
| 2018 | 43 |
| 2019 | 35 |
| 2020 | 41 |
| 2021 | 53 |
| 2022 | 60 |
| 2023 | 61 |
Comparativo com mulheres não-negras
Enquanto os homicídios de mulheres negras aumentaram, os casos envolvendo mulheres não-negras caíram 60% no mesmo período:
- 2013: 10 casos
- 2023: 4 casos
Feira Preta: resistência e empreendedorismo
Como contraponto à violência, a Feira Preta acontece no Espaço Osório Nunes, em Teresina, com objetivo de fortalecer a cultura afro-brasileira e indígena através de:
- Comercialização de produtos artesanais
- Gastronomia tradicional
- Valorização da ancestralidade negra
O evento faz parte da programação do Julho das Pretas, mobilização organizada por coletivos de mulheres negras para combater o racismo.
Raízes do problema: racismo e patriarcado
Halda Regina, coordenadora do Instituto da Mulher Negra do Piauí – Ayabás, analisa que os dados refletem a intersecção entre racismo estrutural e cultura patriarcal:
“Pelo fato de já nascermos mulheres, já nascemos logicamente discriminadas, por questão cultural e histórica. E em todas as violências que possam se colocar nesse país, seja de gênero, seja de racismo, seja na área da saúde, seja de falta de oportunidade, somos nós, mulheres negras, que somos as mais acometidas”, afirmou.
Caminhos para mudança
Especialistas apontam que são necessárias políticas públicas transversais para enfrentar o problema:
- Autonomia financeira para romper ciclos de violência
- Políticas de equidade em todas as áreas (cultura, educação, moradia)
- Enfrentamento conjunto ao racismo e ao machismo
“Quando se fala de políticas públicas para mulheres, o que se pensa é somente em segurança, em criação de delegacias, em prender o agressor, mas não se pensa em uma política transversal”, destacou Halda Regina.
Casos emblemáticos
Algumas vítimas de homicídio no Piauí nos últimos anos:
- Janaína da Silva Bezerra, 22 anos (Zona Leste de Teresina)
- Verônica Félix Ribeiro, 23 anos (Zona Norte de Teresina)
- Maria Raimunda Cruz Silva, 38 anos (Zona Norte de Teresina)
- Irismar Castro, 38 anos (Piripiri)
Contexto nacional
Enquanto 13 estados brasileiros registraram aumento nos homicídios de mulheres negras na última década, a tendência nacional foi de redução. Nos últimos cinco anos (2018-2023), o Piauí foi o único estado que figurou entre os três com piores taxas tanto na década quanto no quinquênio.
Os dados reforçam a urgência de políticas específicas para proteger as mulheres negras, grupo mais vulnerável à violência no país.






