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Falta de fiscalização no descarte de garrafas facilita falsificação de bebidas

O controle rigoroso do descarte de garrafas de bebidas destiladas poderia prevenir a falsificação de produtos com metanol, segundo especialistas em reciclagem. A fiscalização inadequada permite que criminosos obtenham embalagens originais através de catadores e funcionários de estabelecimentos comerciais.

O problema das garrafas vazias

Especialistas afirmam que a adulteração de bebidas com metanol depende fundamentalmente do acesso a embalagens originais. Sem garrafas autênticas de marcas conhecidas, a falsificação se torna significativamente mais difícil de ser realizada com sucesso.

Lucien Belmonte, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Vidro, explica que “o que temos visto com o metanol nos últimos dias é um problema de adulteração muito grave, mas para isso dar certo, você necessariamente precisa de uma garrafa original”.

Mercado paralelo de embalagens

Estabeceu-se um comércio ilegal de garrafas vazias, onde criminosos oferecem valores substancialmente superiores aos praticados no mercado formal de reciclagem:

  • Enquanto cooperativas pagam menos de R$ 1 por garrafa
  • O comércio ilegal oferece entre R$ 10 e R$ 200 por unidade
  • O valor varia conforme o prestígio da marca da bebida

As transações ocorrem inclusive através de plataformas de comércio online, facilitando o acesso dos falsificadores às embalagens necessárias para suas atividades ilegais.

Fiscalização nos estabelecimentos comerciais

Entre 50% e 60% do consumo de bebidas destiladas ocorre em bares, restaurantes e hotéis. Estes estabelecimentos são regidos pela Política Nacional de Resíduos Sólidos, mas a fiscalização do destino final das garrafas apresenta falhas significativas.

Chicko Sousa, engenheiro fundador da GreenPlat, defende que “a fiscalização no retorno dessas embalagens deveria ocorrer nos locais de consumo comercial. A cobrança precisa ser lá”. Ele sugere que estabelecimentos comerciais deveriam comprovar que 100% das garrafas adquiridas entraram em processos de logística reversa.

Marco legal existente

O Brasil dispõe de ampla legislação para regulamentar o descarte adequado de embalagens:

LegislaçãoAnoPrincipais disposições
Lei nº 13.478/2002 (São Paulo)2002Organiza o Sistema de Limpeza Urbana e institui taxas para gestão de resíduos
Lei nº 12.300/20062006Estabelece a Política Estadual de Resíduos Sólidos
Lei nº 14.973/20092009Regulamenta coleta seletiva para grandes geradores
Lei nº 12.305/20102010Institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos
Decreto 11.300/20222022Regulamenta sistema de logística reversa de embalagens de vidro
Lei nº 17.806/20232023Regulamenta gestão de resíduos em eventos

Proposta de mudança estrutural

Especialistas defendem uma reformulação no sistema de reciclagem que inclua:

  • Fiscalização rigorosa do destino das garrafas nos estabelecimentos comerciais
  • Obrigatoriedade de comprovação da destinação adequada de 100% das embalagens
  • Enquadramento da posse ilegal de garrafas como infração adicional em casos de falsificação
  • Fortalecimento de empresas especializadas em logística reversa

Realidade do descarte atual

A maioria dos estabelecimentos comerciais adota práticas improvisadas para o descarte de garrafas:

  • Funcionários são responsabilizados pela destinação final sem supervisão adequada
  • Alguns estabelecimentos quebram as embalagens para inutilizá-las
  • Práticas perigosas como bater garrafas na guia da calçada são comuns
  • Ofertas de compra de garrafas vazias são frequentes

Um proprietário de bar do Planalto Paulista relatou receber ofertas regulares de R$ 5 por garrafas de uísque e R$ 3 por garrafas de vodca, mas afirmou sempre recusar e inutilizar as embalagens.

Modelos internacionais de referência

O sistema alemão apresenta uma alternativa eficiente para gestão de embalagens:

CaracterísticaDescrição
Sistema de depósitoConsumidores pagam valor adicional (8-25 centavos de euro) na compra
Máquinas de devoluçãoInstaladas em shoppings e supermercados para leitura de código de barras
Reembolso automáticoCupons são trocados por dinheiro ou abatidos em compras
Participação cidadãPopulação assume responsabilidade ativa pela reciclagem

Estatísticas da reciclagem no Brasil

Dados recentes indicam que:

  • O país reciclou aproximadamente 320 mil toneladas de vidro em 2023
  • Este volume representa cerca de 30% do consumo nacional
  • A Massfix, empresa do setor, processou 100 mil toneladas em 2024
  • Existem aproximadamente 700 cooperativas atuando na coleta
  • Metade dessas cooperativas está localizada em São Paulo

Iniciativas municipais

A prefeitura de São Paulo criou, através do decreto nº 63.113/2024, um comitê composto por diferentes secretarias para fiscalizar e monitorar a logística reversa e o Plano de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos. O colegiado tem como atribuição coordenar revisões do PGIRS e propor modelos de regulamentação e fiscalização.

Impacto social do sistema atual

O modelo brasileiro de reciclagem possui forte componente social:

  • Catadores e cooperativas são peças-chave no sistema
  • Atividade gera renda para população em situação vulnerável
  • Falta estruturação empresarial no segmento
  • Renda insuficiente incentiva venda para comércio paralelo

Recomendações para melhoria

Especialistas sugerem medidas para enfrentar o problema:

  1. Implementar fiscalização rigorosa nos pontos de venda e consumo
  2. Criar sistema de rastreabilidade para garrafas de bebidas destiladas
  3. Estabelecer penalidades severas para descarte inadequado
  4. Desenvolver campanhas de conscientização para estabelecimentos comerciais
  5. Fortalecer alternativas econômicas para catadores
  6. Adotar modelos de logística reversa com comprovação obrigatória

A experiência com a regulamentação de pneus serve como exemplo bem-sucedido, onde a obrigatoriedade de comprovação da coleta individual resultou em significativa melhoria na gestão ambiental do produto.

Perspectivas futuras

A tramitação de projetos de lei que equiparam a adulteração de alimentos e bebidas a crime hediondo pode representar oportunidade para revisão da legislação sobre posse e descarte de embalagens. Especialistas defendem que a simples posse de garrafas sem comprovação de origem deveria constituir infração adicional em processos de falsificação.

O diretor comercial da Massfix, Rildo Ferreira, explica que a empresa limpa as embalagens e as transforma em cacos adequados para reutilização nas indústrias, demonstrando a viabilidade técnica do processo de reciclagem quando realizado de forma organizada.

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Sarah

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