Os preços do café arábica dispararam quase 35% em agosto de 2025, registrando a maior alta mensal desde 2014, após os Estados Unidos imporem tarifa de 50% sobre as importações do produto brasileiro.
Os futuros do café arábica na Bolsa de Nova York saltaram de US$ 2,842 por libra em 1º de agosto para US$ 3,757 no fechamento de 28 de agosto, em meio a um cenário de rearranjos logísticos e incertezas comerciais.
Impacto imediato no mercado
A medida tarifária provocou uma reconfiguração urgente nas rotas de exportação, com aumento nos custos de frete e valorização dos lotes isentos da sobretaxa. A alta ocorre paradoxalmente durante o pico da colheita brasileira, período em que tradicionalmente a maior oferta pressiona os preços para baixo.
| Indicador | Valor Inicial (01/08) | Valor Final (28/08) | Variação |
|---|---|---|---|
| Preço do arábica (libra) | US$ 2,842 | US$ 3,757 | +34,8% |
| Preço no mercado interno (saca 60kg) | Não informado | R$ 2.390,00 | N/A |
Reação da indústria norte-americana
Grandes torrefadoras dos EUA já anunciaram planos de repassar os custos adicionais aos consumidores. A J.M. Smucker, controladora das marcas Folgers e Café Bustelo, planeja reajustes para o início do inverno no hemisfério norte, enquanto a Keurig Dr Pepper alertou que os impactos serão mais visíveis no segundo semestre de 2025.
A Westrock Coffee também confirmou que transferirá os custos adicionais para seus clientes, indicando que toda a cadeia de valor do café nos Estados Unidos será afetada pela medida tarifária.
Contexto da produção brasileira
O Brasil, maior produtor mundial de café, teve sua safra de 2024 estimada em 54,2 milhões de sacas de 60kg pela Conab. A colheita já alcançou 91% das lavouras na região da Cooxupé, no sul de Minas Gerais, uma das principais zonas produtoras do mundo.
Dados da Minasul, de Varginha (MG), indicam que o fluxo de comercialização em Minas Gerais segue relativamente normal, embora com contratos de exportação mais curtos, geralmente de três a quatro meses.
Fatores que amplificaram a alta
Especialistas apontam três elementos que contribuíram para a disparada dos preços:
- Preocupação climática com a entrada do período de chuvas
- Relatos de que a safra colhida está ligeiramente abaixo do esperado
- Apreensão com a próxima safra brasileira
Ricardo Schneider, presidente do Centro de Comércio do Café do Estado de Minas Gerais, explica que a incerteza criada nos EUA levou industriais a adotarem estratégias defensivas: “Se ele vê risco de não conseguir café brasileiro nos próximos seis meses e muitas vezes já até vendeu esse café, ele se protege comprando bolsa”.
Mudanças nos padrões comerciais
A tarifa provocou alterações significativas nos negócios já contratados:
- Empresas americanas solicitam postergação de embarques para evitar a tarifa
- Em alguns casos, há pedidos de cancelamento com renegociação de condições
- Nenhuma compra ativa de café brasileiro para embarque imediato está ocorrendo
Schiller ressalta que a incerteza sobre a duração da medida é o principal problema: “Se houvesse certeza de que ‘de hoje em diante é assim’, o mercado se reorganizaria. Por ora, não há prazo: pode cair amanhã, em um mês ou seis”.
Redirecionamento de fluxos comerciais
A sobretaxa norte-americana gerou vários efeitos em cascata no mercado global:
| Efeito | Impacto |
|---|---|
| Redução da atratividade | O café brasileiro tornou-se menos competitivo no mercado americano |
| Busca por origens alternativas | Aumento da demanda por cafés da Colômbia e América Central |
| Valorização de carregamentos isentos | Cargas brasileiras que chegarem aos EUA antes de 5 de outubro não pagarão tarifa |
| Redirecionamento para outros mercados | Maior fluxo de exportações brasileiras para Europa e Ásia |
Diferenças setoriais nas políticas tarifárias
Analistas destacam a discrepância de tratamento entre diferentes commodities brasileiras. Enquanto o café foi atingido pela tarifa de 50%, o suco de laranja brasileiro recebeu isenção.
Schneider atribui essa diferença a fatores como a maior concentração do mercado exportador de suco e a urgência decorrente da natureza perecível do produto. No caso do café, o setor tem fornecido informações detalhadas às autoridades sobre o impacto e a relevância do produto, mas até o momento não houve sinalização de mudança na política tarifária.
Impacto na economia norte-americana
O café brasileiro representa aproximadamente 30% do café verde importado pelos EUA, com participação ainda maior nos blends comercializados no varejo e cafeterias. Diferentemente de outros produtos, cerca de 99% do café brasileiro entra nos EUA como matéria-prima (grão verde), sendo industrializado localmente.
Especialistas argumentam que, ao contrário de outras tarifas com objetivo de “reindustrializar” os EUA, no café a medida não se aplica, pois o produto não compete com a indústria local, mas sim a abastece.
Perspectivas futuras
O desfecho da situação dependerá de negociações bilaterais e da avaliação do impacto inflacionário nos EUA. O setor monitora noticiários que já registram comentários sobre encarecimento do café, mas não há indicações concretas de mudança na política tarifária.
O cenário atual representa um exemplo clássico de inflação autoinduzida por políticas comerciais, onde medidas protecionistas geram custos adicionais que são repassados ao consumidor final, criando pressões inflacionárias na economia do país que implementa as barreiras.






